o peso da nuvem

da próxima vez que partir,
vá quando eu estiver dormindo,
assim, quando eu acordar,
vou achar que foi apenas um sonho ruim.
vá de mansinho, sem fazer barulho,
e não bata a porta pra não me assustar.
se puder, não vá numa sexta
porque depois vem o sábado e o domingo,
e os domingos são sombrios, cheios de melancolia e solidão.
vá como se fosse voltar
e deixe suas roupas espalhadas no quarto
pois posso acreditar que vc vai voltar.
vá, mas deixe café na xícara, um copo com água, e o cigarro aceso,
deixe aquele resto de comida no prato
e a porta da sala aberta.
pode ir, mas, se puder, me engane
me iluda, finja, minta...
quando você finalmente se for,
deixe a esperança naquele porta-chaves da entrada; as chaves, não.
e não diga adeus,
pois eu sobrevivo do sonho e da ilusão
do seu retorno
possível, improvável
porque eu sei,
eu sei que fracassamos.