deitado

deitado
me vejo nu, diante do espelho,
cínico,
que flutua sobre meu corpo.

estranhamente,
me amo,
me apaziguo,
viril e forte,
um lampejo raro de mim.

faço um retrato mental,
para que o tempo pare
nesse raro segundo
onde o mundo parece fazer sentido.

vendo-me, vejo também meu outro
e também minha alma gêmea
refletida para mim,
e em mim.

me ocorrer registrar a cena
e enviar, pelas ondas, como apelo,
como prova,
desse segundo perfeito que vivemos,
e da sintonia plena que só existe
entre almas e corpos como os nossos.

exito, recuo, receio,
parecer provocação.
desisto, enfim.

não entendo essa matemática
onde um e um são três.
mas envio então,
este retrato falado
para que não te esqueças
do meu corpo nu
(estentido sobre a cama,
satisfeito, entregue),
dos meus pêlos,
meus olhos,
minha barba em teu corpo
nossos cheiros e salivas,
no abraço forte,
e na união dos afetos
que minha alma guardará marcada
à ferro e brasa
como cicatriz eterna, da sede,
da pequena e intensa existência,
do impossível mais desejado do mundo.

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