onde morrem os pardais

Chegava ao boteco, pontualmente, às oito da manhã e, não raro, encontrava o lugar fechado. Com certa frequência, o dono do bar chegava depois oferecendo ao freguês um pálido bom dia, com a cara ainda amarrotada de sono, consequência da noite mal dormida.

Fumando já o terceiro cigarro do dia, o relojoeiro aguardava encostado na parede, do lado de fora, enquanto o dono limpava o balcão e coava o café.

A relojoaria ficava a poucos metros do bar, no centro velho e sujo de uma grande cidade e, religiosamente, antes de abrir sua loja, o relojeiro inaugurava o dia tomando café e fumando outro cigarro no estabelecimento vizinho.

Era um sujeito introvertido, de poucas palavras. Embora sua idade estivesse em torno dos cinquenta anos, aparentava ser bem mais velho, em virtude de sua cadavérica magreza, incontáveis rugas, e marcas de expressão facial. Era alguém castigado pelos tempo, e isso era bem visível.

Começou no ofício de relojoeiro quando ainda era muito jovem e, curiosamente, desde então, desenvolveu uma obsessiva e doentia relação com o tempo. A finitude do tempo humano o assombrava terrivelmente. Começou a morrer no dia em que nasceu, e deixou de viver a vida, obcecado pelo dia final. A ideia do fim lhe era tão aterrorizante que se ocupava de organizar cada segundo do seu dia, como se fosse possível ter domínio sobre o tempo e assim evitar o dia de sua morte.

-- Preciso controlar o tempo! Preciso controlar tempo! Nove horas, abrir a loja. Meio-dia, almoçar. Dezoito horas, fechar a loja. Dezenove horas, jantar. Vinte e três horas, dormir. Hora da televisão, hora do mercado, hora do ônibus, hora do café, hora do jornal. Hora, hora, hora. Entretanto, o dia corria conforme a vontade indiscutível dos ponteiros do relógio.

Enquanto ficava por ali no café, de olho no relógio, o relojoeiro se distraía com a algazarra dos pardais, sempre barulhentos, brigando por território, comida e fêmeas. Impressionava-o a agilidade com a qual eles voavam e se desviavam dos obstáculos, fossem fixos ou móveis. Impressionava-o, também, a pontaria certeira que eles tinham para penetrar, com fúria, nos maciços de folhas das árvores e arbustos.

A cidade era infestada deles, uma verdadeira praga. Por todo lugar, os bandos competiam no espaço urbano com pombas, rolinhas, bem-te-vis e andorinhas. Com exceção dos pardais, de vez em quando, o relojoeiro se deparava com um ou outro pássaro morto. As andorinhas, por exemplo, morriam durante o deslumbrante espetáculo do pouso. Um espetáculo gracioso e coordenado, no qual milhares de andorinhas circulavam os céus antes de se atirar em velocidade para pousar nas árvores das praças. Uma ou outra desavisada chocava-se fatalmente contra os quase invisíveis fios da rede elétrica, e assim a alegria do espetáculo se transformava em tragédia.

Pombas e rolinhas, por sua vez, eram atropeladas pelos veículos sempre apressados, que abandonavam seus inertes corpos esmagados em decomposição no asfalto quente. Já os bem-te-vis viravam alimentos dos gatos de rua, que os surpreendiam de emboscada e deixavam, como vestígio, apenas um rastro de penas amarelas e pretas.

E isso, como espinho pontiagudo, cutucava sua alma, pois diariamente confrontava-o com sua finitude, com a banalidade e a facilidade com que se morre. Vive-se cuidadosamente toda uma vida e, de repente, num segundo de descuido, coloca-se tudo a perder, pensava. Leva-se uma vida inteira vivendo para morrer.

Com os pardais, entretanto, era diferente. O relojoeiro nunca havia visto um pardal morto. Não trombavam em fios, não eram comidos pelos gatos, não eram atropelados, e suas constantes brigas não traziam nenhuma consequência mais séria.

Talvez morressem de velhice, pensava. Mas onde? Será que morriam em seus ninhos e lá ficavam até a completa decomposição da matéria? Ou será que abandonavam a cidade para ir morrer no campo?

E então as perguntas começaram a se avolumar nos pensamentos do relojoeiro, tamanho era seu interesse a respeito do assunto. Sua mente obcecada criava inúmeras fantasias. Um pássaro, que é feito para voar, deveria vir ao chão por ocasião da sua morte, pensava. Com essa quantidade imensa que habita as cidades, por quê, então, nunca havia visto o corpo de um pardal?

Atormentado pelo mistério, o relojoeiro dormiu num domingo e acordou na segunda-feira decidido a solucionar a questão. Nesse dia, desistiu do cigarro e não tomou café. Pela primeira vez, o dono do boteco abriu o estabelecimento e seu mais fiel e pontual cliente não apareceu.

O relojoeiro saiu pelas ruas, sem rumo, e, em tom solene, perguntava a qualquer um que cruzava seu caminho se sabia onde morriam os pardais. Uma senhora gorda, que vinha em sentido contrário, afastou-se dele com a cara fechada ao ser abordada. Um casal de namorados olhou com desdém, como quem diz, “está bêbado!”. Certa mãe, que trazia seu filho pequeno pela mão, puxou com vigor a criança para si, como se o relojoeiro fosse raptá-la. Um ou outro mais complacente respondeu que não, não sabia nada sobre a morte dos pardais.

Meio-dia, sol a pino, causticante, e um corpo de apenas cinquenta quilos se desmonta no chão. Era o relojoeiro desmaiando ao atravessar a rua, esgotado pela loucura e o calor. Ouve-se uma freada brusca e um veículo para a poucos centímetros da cabeça do homem estendido no chão. Instaura-se um corre-corre geral, burburinhos, e uma multidão de curiosos rodeiam o desfalecido. Enfim, chega a ambulância e leva o relojoeiro ao hospital.

Pouco tempo depois, o relojoeiro recobra os sentidos. Recobra também a razão e dá-se conta do ocorrido. Envergonhado de si mesmo e calado, resigna-se.

Após ser liberado do hospital, dirige-se imediatamente para a relojoaria. Abre a porta devagar e contempla as centenas de relógios espalhados e pendurados por todos os lugares. Relógio de todos os tipos, as paredes inteiramente tomadas. Todos os ponteiros girando num sincronismo perfeito e o tique-taque denso, quase palpável. Nas horas cheias os badalos, cucos e sons provenientes dos relógios, preenchiam o recinto numa sinfonia maluca e ensurdecedora.

Lenta e ritualisticamente, o relojoeiro interrompe o funcionamento de cada relógio. Um a um, os relógios vão parando de trabalhar: quinze horas e trinta minutos, quinze e trinta e um, quinze e trinta e três. Uma noite inteira de trabalho.

Pela manhã, todos os relógios estão parados. Imaginava, agora, que finalmente havia conseguido controlar o tempo. Não estaria mais sujeito às suas funestas consequências. Quem sabe, viveria para sempre. Não importa mais o tempo, pensou, quero apenas viver.

Bem devagar, e sem dar as costas aos relógios, em postura de reverência, retira-se da loja e fecha a porta de vidro que separa o ambiente interno da rua. Ao virar-se, encontra um mundo irreal. O mundo havia parado. Tudo estava estático e no mais absoluto silêncio. O mundo estava em suspensão, como num filme em pausa.

Incrédulo e boquiaberto, atravessou a rua. Quase sem pensar, dirigiu-se para o bar do amigo. O amigo estava imóvel em frente à pia, na posição de quem lavava um copo. A torneira aberta, mas a água congelada como em uma fotografia. Chamou o amigo, gritou, e nada. Tocou-o, pedra!

De volta para a rua, deparou-se com um garoto segurando seu sorvete a caminho da boca; chamou-o e, também, nada. Mais à frente, um ciclista em equilíbrio, mesmo sem estar pedalando. Ao lado, um pedestre com sua perna levantada no passo incompleto, olhando para a pessoa que o acompanhava. Na esquina, um veículo em plena curva, no instante em que o motorista trocava a marcha.

Caminhou por dois quarteirões à sua direita, voltou e andou mais três à sua esquerda; e todos os momentos estavam absolutamente estagnados.

Sentou-se então na sarjeta em frente à relojoaria, ainda custando a acreditar no que estava acontecendo. Olhando pra cima, como quem busca explicação, percebeu um discreto movimento na árvore que sombreava a calçada. Olhou novamente, e nada. Apenas silêncio.

De repente, um novo movimento em meio à folhagem da árvore. Para sua surpresa, um pequenino pássaro olhava agitado para todas as direções: um pardal. Olhava ao redor e tudo continuava na mesma, absolutamente parado. Estou ficando maluco, pensou.

Num voo curto e rápido, o pardal desceu da árvore e pousou bem em frente ao relojoeiro. Olharam-se. Por um breve período, o pardal ficou ali, na sua pequenina velocidade, olhando avidamente para todos os lados. Em seguida, começou a afastar-se do relojoeiro, ora saltitando pelo chão, ora voando.

Como quem sente um chamado, o relojoeiro levantou-se e pôs-se a seguir o pardal. Um estalo e, num fechar e abrir de olhos, tudo ficou óbvio. O relojoeiro, finalmente, iria descobrir onde morrem os pardais.

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