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eu escrevo
e me inscrevo no papel
para que o papel não se inscreva em mim
e seu branco não me possua


capitão do céu

Entrou na terra por uma caverna chamada nascer, e fez isso em cativeiro, no interior da Bahia, nos tempos da escravidão. Era um dia qualquer, indeterminado, insípido, comum, igual a todos os outros já vividos por aqueles que o antecederam. Chegou em silêncio, sem alardes, sem choro e anônimo, sob o manto da indiferença.

Não tinha pai. Os homens feitos dormiam em lugares diferentes das mulheres, e com elas encontravam-se somente aos domingos, quando se reuniam para procriar, festejar e também lamentar. Fora em um desses domingos que aquela que viria a ser sua mãe, entorpecida de aguardente, aceitou ser amada e possuída por um desconhecido, acolhendo em seu ventre o sêmen da estranheza.

Se pai não tinha, mãe era como se não tivesse. As mulheres sadias desempenhavam diversos trabalhos na casa-grande, entre quatorze e dezesseis horas por dia, de maneira que as crianças ficavam sempre sob os cuidados das mulheres mais velhas ou doentes.

Como gado no cercado, os escravos eram criados para reproduzir e trabalhar, oferecendo, em sacrifício, a vida digna que um dia poderiam ter vivido.  Eram abastados em ignorâncias, e essa condição acerca das coisas tornava suas vidas extremamente limitadas, pois não havia terreno fértil para sonhos que pudessem ser plantados além dos limites da fazenda onde moravam.

O menino, além de não ter nome, não tinha identidade em meio ao seu povo. Tomou lugar entre seus pares, como se fosse apenas mais um, mimetizando-se em meio às entranhas cinzentas do sertão nordestino.

O sertão carrega em si uma força avassaladora. Apresenta-se ressecado, torcido e aparentemente frágil, mas, na verdade, demonstra todo seu poder ao expor as mazelas daqueles que se metem com ele. Nos detalhes de seus infinitos desvãos e nos segredos da sua aridez há um adversário forte e implacável. Assim era o menino; trazia, em algum lugar do peito, semelhanças com o lugar onde morava.

Sua postura arqueada era conseqüência da sua insignificância. Tinha medo de encarar as pessoas e sempre dirigia o olhar para baixo. Com isso, entretanto, desenvolveu um apurado sentido de atenção e importância para as pequenezas encontradas ao rés-do-chão.

O tempo passava, mas o menino permanecia franzino aos olhos de todos, sempre tímido e inerte. Seus ossos, de aparência delicada, eram secos, à semelhança da folha que cai pela falta d’água; seu caráter, porém, guardava a resistência do umbuzeiro.

À noite, quando os lampiões se apagavam e a escuridão invadia a senzala, emergia de dentro do miúdo um verdadeiro gigante. Sem luz, ele não tinha outra opção a não ser olhar para dentro de si. Enquanto os outros dormiam, passava noites em claro dando asas ao pensamento, e o inevitável ato de olhar para si transformou-o em homem, observador, insatisfeito, infeliz e indignado.

Para o céu olhava somente quando estava deitado ao ar livre, nos raros momentos de descanso. Nessas ocasiões algum sentimento esperançoso lhe dizia que, além-mar – esse mar arenoso e ocre sobre o qual andava –, encontraria chance de real felicidade. Imaginava um lugar de sonhos possíveis, realizáveis; árvores frutíferas.

Incomodava-lhe o caminho rígido e demarcado das trilhas destinadas aos escravos, onde só se olhava para a nuca do companheiro à frente. Seu pensamento, por vezes, errava. Gostava de fazer defeitos, e sabia que isso não era doença. Tinha predileções por desvios, onde encontrava a verdadeira beleza do viver.

Frequentemente enxergava a si mesmo flutuando por cima das árvores, e concebia um lugar onde pudesse expressar-se através de um olhar generoso e atento para as sutilezas da permanente construção que é a vida. Um olhar que a poucos é dado o privilégio de ter. E então o banzo habitual era substituído por uma paz inominável, que, entretanto, era dissipada, aos poucos, pela realidade do dia a dia.

Era jovem ainda quando criou boca e soltou um resmungo qualquer diante de uma ordem estúpida do capataz da fazenda. A reação foi instantânea e desproporcional. A violência do capataz deixou-lhe marcas profundas no corpo e no espírito: uma cicatriz enorme no rosto e um ódio desmedido na alma.  Depois disso, passou a ser deliberada e sistematicamente perseguido pelos seus senhores, sofrendo constantes humilhações perante todos moradores da fazenda.

Se antes olhava apenas para baixo e para dentro de si, agora, seus pensamentos, dia e noite, eram ocupados com planos de fuga. Seus desejos repousavam sempre para além das cercas que circundavam as terras onde nasceu e cresceu. Não sabia ao certo nem como, nem quando, sabia apenas que precisava ir, que ali não era seu lugar.

O dia chegou de maneira incomum, taciturno, cinza e chuvoso. O excesso de chuvas impossibilitou qualquer tipo de trabalho externo, e os homens ficaram amontoados na senzala envolvidos com pequenos afazeres, enquanto as mulheres permaneciam trabalhando na casa-grande. Havia uma bruma invisível no ar, tóxica, que pairava imperceptível entre todos, impregnando o lugar com uma densidade ansiosa e agitada, porém silenciosa.

Nuvens esculpidas formaram-se no céu e, com o chegar da noite, manifestou-se um fenômeno nunca antes visto na terra. O oceano, distante a muitos quilômetros dali, precipitou-se com fúria sobre aquelas terras, derramando sal sobre os viventes, senhores, escravos, animais e plantas. Assustadas, as pessoas corriam indistintas pelo terreiro, olhando para cima boquiabertas, sem nada entender.

O negro sem nome, agora homem, observava com êxtase o acontecimento. O ar se tornou pesado, pegajoso, esbranquiçado. Fortes rajadas de vento encheram sua boca com sal, que passou rascante por sua garganta. Teve sede e ânsias. Tossiu com violência e vomitou longe uma massa salgada. Sentiu, então, que era o momento.

Mirou o corredor de árvores que dava acesso à fazenda e, sem pensar, saiu disparado. Enquanto corria, imaginava-se passando pela caverna por onde chegou, atravessando o túnel escuro que o tirou da segurança uterina e o colocou no mundo. Agora faria o caminho contrário. Percorreria novamente essa passagem, mas para ganhar autonomia e independência.

Correu como animal fustigado, sem olhar para trás. Só depois de muitas horas parou para descansar, e então se deu conta de que já era noite.

Na fazenda, após muito esforço e brutalidade, os capatazes e feitores controlaram a confusão e procederam à contagem dos escravos. Em pouco tempo, deram por falta do franzino. Rapidamente reuniram uma equipe de busca, composta por cachorros, cavalos e capangas, tendo à liderança o capitão do mato.

Os cães, nervosos e ganindo muito, saíram correndo na frente, seguidos pelos homens em seus cavalos, em busca de rastros do fugitivo. Enquanto isso, o escravo corria desesperado pela caatinga, no meio da noite, orientando-se apenas com a luz do luar. Marcas da sua passagem iam ficando pelo caminho, em espinhos, raízes, pedras e arbustos. Sangue, suor, pelos, carne e vestes: rastros indeléveis para os cães e o capitão do mato, hábeis na tarefa de perseguir.

Por quase uma semana correu perdido e desorientado pelo mato, sem saber onde estava. Após esses dias, enfraquecido pelo cansaço e pela fome, deparou-se com um intricado complexo de árvores e raízes expostas: um manguezal. Nunca, em sua modesta vivência, tinha visto vegetação parecida. Nem, ao menos, nos sonhos.

A maré vazante do mangue expunha aos seus olhos lama, animais exóticos, lagunas, flores e um infindável emaranhado de raízes, quase intransponíveis. Atirou-se ao mangue e imediatamente foi abatido pelo desespero, ao ter quase metade do corpo atolado na lama. No segundo passo, um grande caranguejo cravou-lhe as fortes pinças no pé. Conteve o grito, reuniu forças e prosseguiu na trama de raízes, ora por cima, ora por baixo, ora dentro e ora fora d’água.

Precisou de horas para vencer o mangue, e então, subitamente, apareceu-lhe a praia. A visão do mar foi estarrecedora e paralisante. Estático e com a respiração descompassada, contemplou a infinitude daquilo que ele só ouvira falar nas cantigas e lendas dos escravos mais velhos. O horizonte longo e linear, o eterno ir e vir das ondas, a vastidão da água, da areia e o sal, que dias antes havia lhe ferido a garganta, indicando a hora de partir.

Movendo-se lentamente pela areia branca e pesada, ouviu ao longe os latidos dos cães. Estava exausto, sedento, faminto, machucado e nu. Continuou, cambaleante, em sentido contrário ao de onde vinham os latidos. O desconhecimento do terreno havia lhe custado tempo precioso na fuga. Poderia facilmente ter evitado o manguezal.

Em virtude disso, não demorou muito para que o capitão do mato surgisse na praia, liderando jagunços, cavalos e cães.

Sem ter para onde correr, o menino, ainda escravo, parou diante de um enorme bando de aves marinhas que se alimentava na flutuante divisão entre a água e a areia. O pequeno exército se aproximava rapidamente e, como não havia mais tempo, arriscou a única possibilidade que lhe veio à cabeça; e então bastou apenas um gesto, um olhar, um pleno vôo e o céu. Abriu os braços e, juntamente com os pássaros, lançou-se para a liberdade.