tempo e espaço

tempo e espaço não são áridos
tempo e espaço
têm tempo e espaço

tempo
e
espaço

de
formam


o amor

amor

palavra estética: A
............................M
................................O
....................................R

palavra letra: A M O R

palavra abuso: AMO você!

palavra histérica: AMORA morra AMORTE amoral ROMA romã


entre tangentes

Prefiro as tangentes. As paralelas nunca se beijam.
Nunca se encontram ______________________
Nunca se encontram ______________________


silêncio com farpas

encarei seu olhar deserto,
mas só vi deserto
olhar já não havia mais.

havia deserto
e silêncio

insolente
insone
eloquente

não me dou bem com silêncios
justamente porque falam demais
enlouquecem-me

uma vez nasceu com farpas
não foi por mal dado, eu sei
mas esgarçou o vazio
ruidoso demais

para palavras mudas, saliva,
azeite
deslizar bem pelos ouvidos,
seus deslizes,
não mais.


morada

Com você me fiz pessoa. 
É difícil guardar tudo isso só em mim. 
Minha morada é pequena demais e preciso transbordar.


lições do poeta

Aprendi com o grande poeta
(filósofo das formigas e lesmas),
exercícios do desconhecimento,
inventar descobrimentos.

Que a água da minha lágrima é lírica
E o sal empedra em paredes d'olho.

Que melhor para sorrir é coração cheio,
e estômago acolhe frio, borboletas e flores.

Que poeta vive do nada,
das inutilezas,
mas seu olhar distribui amores.

Que amor faz a noite pequena.
Falta noite, sobra amor.

Que poeta prefere viver. Mas nem todos.
Viver é igual morrer, só que ao contrário.
Poesia rega a flor até o andar de cima.


metades

metade de mim escorre e explode em bolhas
a outra metade
adormece...

foto © mário bueno


aviso

ATENÇÃO!
isto não é um poema
é um aviso

aviso a quem interessar possa
que não uso mais verso nem prosa

informo neste comunicado
que deixei a pena de lado

esclareço que de hoje em diante
serei um calado errante
somente usarei mímica
e linguagem do sinais

encerro esse reclame
atenciosamente, sem mais.


espremedor de poemas

teimei palavras contra um papel branco,
insisti.
para que não escapassem
folha dobrada em oito,
quadrada

até que saiu
poeminha liso
simétrico
e rimado
você bem-me-quer

apaguei meia dúzia, três
escrevi outra vez, noves fora,
seis

melhorou bocadinho

poeminha maquiado
batom dourado
cabelo penteado
você mal-me-quer

não me fiz de rogado

lembi a pena com afinco
escrevi outras palavras,
cinco

papel já surrado
rabiscado
amassado
nem parece mais aquele importado

pois agora
nem poema
nem trema
apenas um eterno dilema

bem-me-quer
mal-me-quer
você não sabe o que quer

foto © mário bueno

osso

não posso mais ignorar
sua boca na minha

na minha mão braços faces

suas presas
pontiagudas
cortantes
insanas
insuspeitas
bastardas
na minha carne

todas possibilidades
me repletam
me completam
me contemplam
me, me, me...
me isso
me aquilo
me osso

sua mão, cheia de dentes
na minha boca

sua boca, cheia de mãos
nos meus dentes

seus dentes, cheios de bocas
na minha mão

sua boca, cheia de incontáveis dentes sangue
nos meus dedos, minhas mãos, meu rosto.

vida própria seus dentes,
sua boca
para falar
rosnar
vociferar

não escapa da mordida
a mão que alimenta
que acarinha

possível, era
provável, pouco
um osso


linha reta

eu pulso
vida pulsa
ela pulsa
pula
pulsa

altos / baixos
interruptos \

trancos e barrancos
barras contrabarras

papel riscado
gráfico sujo
defeitos
ruídos
beleza

muita beleza

linha reta é quem já morreu
horizontal


bolha

ao sabor do vento
a bolha frágil levava consigo
o ar do meu último suspiro
você assoprou, acabei-me
acabou-se

foto © mário bueno