o colecionador de sonhos

O fim do mês ainda estava longe, o orçamento, porém, já inspirava cuidados. Diante da gôndola do supermercado, Antonio olhava indeciso entre a cerveja na prateleira e o sabonete em sua mão. Era um homem de hábitos extremamente controlados, mas, vez ou outra, se permitia a pequenas liberalidades, como tomar uma garrafa de cerveja importada ou começar um sabonete novo, ao invés de usar a costumeira maçaroca de sobras que os mais sovinas, ou de poucas posses, costumam fazer.

Seria cientista por vocação, mas os desmandos da vida, entretanto, o transformaram em um invisível funcionário da burocracia estatal, esquecido em algum almoxarifado bolorento e mal iluminado da cidade. Reservado e discreto, passaria por um sujeito qualquer em meio à multidão, um comum, não fosse um segredo que carregava guardado a sete chaves: construíra uma minúscula engenhoca mecânica capaz de capturar sonhos.

É que Antonio possuía uma estranha e insana obsessão pelos sonhos e quereres alheios.  Sua obsessão era tamanha que, nas horas vagas, havia construído a máquina a fim de guardar para si todos os sonhos do mundo.  O aparelho, apesar de engenhoso, tinha o funcionamento bem simples. Bastava aproximá-lo das pessoas que ele capturava de suas falas, ou pensamentos, tudo aquilo que fosse relativo a sonhos. Por isso Antonio andava invariavelmente munido de seu apetrecho, escondido em bolsos de camisa, para que em qualquer situação lhe fosse possível armazenar suas preciosidades oníricas.

Esgueirava-se sorrateiramente, como uma sombra, no ônibus, na padaria, na rua, no supermercado, em qualquer lugar onde estivesse, com o intuito de garimpar nas conversas dos outros os desejos, as vontades e os sonhos.

A noite, já em casa, transferia o conteúdo da máquina para potes de vidros, que eram adicionados a outros milhares de potes que acumulara em vários anos.  Somente a ele tinha sido dado o poder de enxergar os sonhos nos transparentes recipientes, o que fazia com extremo prazer.
O ato de observar lhe ensinara que havia dois tipos de sonhos: os sonhos que as pessoas sonham quando estão acordadas e os sonhos que as pessoas sonham quando estão dormindo.

Os primeiros são os que falam dos desejos, das vontades e quereres, como os sonhos de consumo, sonhos de amor, liberdade, saúde, emprego, a casa própria, filhos, uma vida mais simples, um carro, viagens, uma pequena horta, um jantar em Paris. Dessa espécie Antonio possuía guardados vários tipos, desde sonhos triviais até sonhos megalomaníacos.

Dos sonhos cuja natureza era daqueles sonhados por pessoas que sonham dormindo, havia alguns que eram razoavelmente comuns, como, por exemplo, sonhar que se está voando livremente pelo ar e sonhar com animais. Havia também os sonhos que traziam pessoas e fatos já há muito tempo esquecidos, e os sonhos que propiciavam o encontro com familiares falecidos. Alguns retornavam ao útero materno, enquanto outros iam para guerra. Havia os que viajavam por alguma galáxia perdida do universo em companhia de extraterrestres, e os que estouravam fortunas nos cassinos de Los Angeles. Também havia os pesadelos e aqueles sonhos tumultuados, confusos, misturados um no outro, completamente fora de lógica e desprovidos de qualquer sentido. Por esses tinha especial apreço.

Obviamente que, na prática, acontecia de um tipo de sonho invadir o espaço do outro, a ponto de confundirem-se, mas, na concepção de Antonio, eram somente aqueles dois os tipos que existiam.

Antonio chegava em casa, descarregava os sonhos, e contemplava extasiado aquele quase sem fim de vidros enfileirados, maravilhado pela imensa capacidade do imaginário humano.  Sonhos seus, porém, não os tinha. Eram todos os dos outros.

Calhou certa vez, em sua ausência, de sua casa ser invadida por ladrões. Estes remexeram gavetas e abriram armários em busca de algo que pudesse ser furtado. Bagunçaram tudo. A coleção de sonhos provocou nos ladrões um misto de espanto e incredulidade: quem seria maluco de guardar milhares de pequenos frascos, todos aparentemente vazios, organizados com tanto rigor e método?

Enfurecidos por não encontrarem nada de valor, os assaltantes acharam por bem trazer abaixo todos os armários que guardavam a coleção de Antonio e, com eles, todos os milhares de potes que armazenavam os sonhos.

Em questão de minutos o local transformou-se em uma verdadeira cena de guerra. No chão formou-se uma espessa camada de vidros quebrados, tampas e restos de prateleiras, que os assaltantes também fizeram questão de quebrar.

Antonio, que chegou horas mais tarde, se deparou, perplexo, com a casa arrombada, revirada e toda sua coleção destruída. Sentiu o corpo estremecer e, em seguida, adormecer. Passou mal, teve ânsias e o estômago embrulhou. Então, sentiu sede. Uma sede que não se pode explicar. Sede que água não mata. Sentiu como se toda água do oceano tivesse invadido seu corpo, trazendo com ela também todo o seu sal, em um prenúncio do que estava por vir.

Em choque, andou em meio aquele caleidoscópio de vidros partidos, à procura de qualquer sonho, qualquer um que, por ventura, tivesse sobrado. Entre um frasco quebrado e outro descobriu que não havia restado nenhum. A destruição ocasionada pelos assaltantes fez com que todos os sonhos simplesmente evaporassem de seus recipientes. Ele nunca havia pensado nessa possibilidade, mas sua intuição dizia agora que esse acontecimento iria trazer desdobramentos inimagináveis.

Os sonhos, efêmeros e voláteis, em forma de vapor, começaram a se reunir no céu e a formarem gigantescas nuvens negras, densas e opressoras, que foram aumentando exponencialmente a cada sonho que lhes era incorporado. Girando furiosamente, as grandes nuvens, não resistindo à força da sede de Antonio e aos ditames da natureza, desabaram em forma de água sobre a terra, em volume e velocidade nunca antes vistos. Chovia de tal forma que toda a cidade transbordou, sofrendo estragos de enormes proporções.
Não tendo para onde fugir, Antonio foi então levado de forma violenta pelas águas, tendo que lutar bravamente por sua sobrevivência. Resistiu por dois dias à enchente na copa de uma grande árvore, de onde via passar em turbilhões e enxurradas os milhares de sonhos que havia acumulado anos a fio. Todo seu esforço havia se perdido e agora os sonhos de sua coleção estavam se transformado numa imponderável e cruel realidade, arrastando a tudo e a todos com impiedade.

No terceiro dia, com as águas ainda lambendo-lhe os pés, Antonio avistou um helicóptero que vasculhava a área em busca de sobreviventes. Com o pouco de forças que ainda tinha, arrancou a camisa e acenou desesperadamente para que fosse visto.

Em poucos minutos a cesta de resgate já estava a seu alcance. Com a ajuda do socorrista entrou na cesta; segundos depois, o helicóptero já partia rumo a um local seguro.

Rapidamente a aeronave atingiu grande altitude. Antonio sentia-se relativamente seguro e protegido dentro da cesta quando algo inesperado aconteceu. Um forte estalo e o cabo de aço, que sustentava a cesta, se rompe. A cesta e seus dois ocupantes despencam no céu em direção à pequena porção de terra que acabava de se projetar. Tomado pela terrível sensação da queda livre, Antonio perde a respiração. São quatro longos e torturantes segundos de desespero até o impacto no solo.

Um milésimo antes do impacto, porém, Antonio dá um pulo na cama e acorda com o coração disparado. Grito preso na garganta, levemente atordoado e confuso, ele percebe que está em seu quarto. Olha o relógio. São seis e meia da manhã. Respira fundo e aliviado. Alguns minutos depois, sai da cama e se prepara para mais um rotineiro dia de trabalho. Ao mirar o espelho não se reconhece como Antonio. Ele vê outra pessoa; vê, de fato, quem realmente é. Seu nome verdadeiro é Miguel, e já tinha perdido as contas de quantas vezes sonhara que era Antonio. Horas mais tarde, no supermercado, ele compra um sabonete novo.