a travessia

Ainda era escuro quando ele acordou com o barulho do despertador. Apesar do sono, estava ansioso com a chegada desse dia e assim tratou logo de sair da cama. Esfregou os olhos, espreguiçou-se e, ainda meio trôpego, rumou ao chuveiro para o costumeiro banho matinal.

Há anos sonhava com essa aventura, mas somente agora é que finalmente conseguiria realizar tão esperado sonho.

Em silêncio, para não acordar a mulher, foi até a cozinha e preparou um reforçado café da manhã. O dia seria longo e cansativo, portanto precisaria estar bem alimentado.

Caminhou até a sala de jantar e por um momento contemplou orgulhoso toda a parafernália espalhada pela mesa e chão. Aos poucos conferiu a lista para certificar-se de que não se esquecera de nada e que tudo estava em ordem: barraca, saco de dormir, colchonete, rede de descanso e mapas. Nos alforges roupas, calçados, produtos de higiene pessoal, ferramentas, peças sobressalentes, primeiros socorros, fogareiro, panelas, alimentos e tantas outras coisas necessárias para a viagem.

Tinha aproximadamente uma centena de itens, organizados e separados em sacolas diferentes para facilitar a localização e o acesso de qualquer coisa a qualquer momento.

Ele nunca havia feito nada parecido antes, entretanto toda informação que amealhara durante meses de pesquisa seria mais do que suficiente para completar a empreitada com alguma tranquilidade.

Enquanto carregava as coisas para fora de casa, a família pouco a pouco foi acordando. A mulher, os filhos, o pai, a mãe.

Ainda sonolentos observavam com um misto de resignação e complacência o pedalante ajeitar os últimos detalhes em sua bicicleta completamente carregada.

Seu objetivo era atingir o pico do Porta do Céu, o monte mais alto do país, a cerca de cinco mil quilômetros distantes de casa. Faria isso pedalando por essas estradas do mundão de seu Deus, ao longo de três ou quatro meses de viagem, com a intenção de chegar por lá no inverno, quando poderia desfrutar de um dos céus noturnos mais belos do planeta.

Tudo pronto para a partida, iniciou-se outra rodada de despedidas. Havia um clima de tristeza no ar. Os filhos, ainda pequenos, brincavam ao redor da bicicleta, sem entender direito o que se passava. Silenciosamente abraçou seus familiares como se fosse a última vez; todos com lágrimas nos olhos como que pedindo para ele ficar.

Olhou para as crianças de modo tão direto e profundo, que as palavras se tornaram desnecessárias, pois as mesmas já haviam sido ditas e reditas como um mantra, várias e várias vezes durante o período de incubação da jornada.

Finalmente montou em sua bicicleta e, reticente, partiu sem olhar para trás. Eram seis da manhã. Assim que dobrou a esquina, a mulher, já com a mão no rosto, correu em prantos para dentro de casa chorando compulsivamente.

Para o pedalante, entretanto, todo o cenário parecia novo por mais que ainda estivesse a poucos metros de casa. Os velhos e conhecidos caminhos do bairro adquiriam um aspecto totalmente diferente, como se fosse a primeira vez que estivesse passando por ali. Sua própria existência ganhava novos contornos.

Enquanto pedalava lentamente em direção à saída da cidade, repassava em pensamento todo o longo trajeto que percorreria nos próximos meses. Partindo do litoral onde morava, subiria em direção ao norte, margeando o país pela praia por centenas de quilômetros. Duas semanas de viagem, talvez. Depois, rumo a oeste, atravessaria várias cidades, estados, culturas e costumes diferentes, percorrendo intrincados caminhos em zigue-zague, subidas e descidas por morros e montes, até finalmente chegar na Porta do Céu, o ponto mais alto do país.

Bastaram poucas pedaladas para que o asfalto ficasse logo para trás. Entrou por uma estreita trilha de terra, bem arborizada e fresca, e após alguns quilômetros teve acesso à praia onde foi saudado com deslumbrante nascer do sol, de alaranjado incandescente.

Agora, sim, a viagem começa de verdade, pensou. Com tudo que precisava a bordo, e casa nas costas, o pedalante estava por conta própria.

A areia da praia, úmida e compactada, era terreno perfeito para pedalar de maneira bem cadenciada, permitindo que a bicicleta atingisse boas velocidades. Dessa forma era possível percorrer dezenas de quilômetros em poucas horas, fazendo rápidas paradas apenas para beber água, descansar e recuperar as energias.

Ao entardecer encontrou um pequeno gramado sob algumas árvores, ligeiramente recuado da praia e bem protegido da brisa marítima. Ali montou seu acampamento e rapidamente preparou o jantar, pois a fome e o cansaço se manifestavam com intensidade.

Sentado à porta da barraca, enquanto comia, admirava a noite que calmamente se anunciava. O céu com lua cheia prometia um espetáculo à parte.

Sacou um pequeno livro do bolso, cujo autor era um renomado navegante, e pela milésima vez leu – desta vez em voz alta – o trecho que poderia resumir toda a sua existência: “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu”. E ele estava ali para isso.

Seriam meses que valeriam por toda sua vida. Meses nos quais ele aprenderia muito sobre o desapego e a simplicidade; a descobrir como é bom viver e ser feliz com pouco.

Já deitado em seu saco de dormir, adormeceu profundamente enquanto ainda pensava nas palavras do livro.

Despertou com as primeiras luzes do sol e logo percebeu que o relógio já não seria mais necessário. O sol, a lua, a fome e a sede seriam a partir de agora seus guias. Saiu da barraca e caminhou para o mar. Mergulhou naquelas águas límpidas, levemente esverdeadas. A areia quase branca. O lugar era paradisíaco, e por ser de difícil acesso ainda mantinha suas características originais.
Ao sair da água sentiu forte tontura. Com a respiração ofegante, sentou-se para não cair e assim ficou por alguns minutos até que a cabeça voltasse ao normal.

Logo que a tontura passou, levantou-se, caminhou até o acampamento, tomou um rápido café da manhã e desmontou toda a tralha para seguir viagem.

Por volta do oitavo dia de viagem se deparou com um imprevisto. Um rio cortava seu caminho. Não era exatamente largo, mas em compensação não era raso o suficiente para atravessar pedalando. Contorná-lo seria impossível. Sem pestanejar arrancou a camisa, os calçados, e entrou na água para verificar a profundidade. Vendo que era possível fazer a passagem, tirou os alforges, bolsas e sacolas da bicicleta e um a um foi transportando sobre a cabeça para que não molhassem, até chegar do outro lado do rio. Por último ficou a bicicleta, que também foi transportada acima da linha d´água.

No décimo quarto dia encerrou o trecho do litoral e partiu para oeste, em direção ao interior do país.
Quilômetro após quilômetro as semanas foram se passando. A cada dois ou três dias parava em alguma cidade ou vilarejo para repor os suprimentos ou fazer pequenos reparos na bicicleta.  Sempre que chegava com a bicicleta carregada, atraía a atenção para si. Os locais perguntavam de onde ele vinha, para onde estava indo e queriam saber da sua história, dessa aparente loucura que era viajar de bicicleta pelo país afora.

Identificando-se com suas aventuras, não raro os moradores lhe ofereciam pouso, comida e banho. Faziam questão de tê-lo em casa como convidado, com uma generosidade que há muito tempo ele não via. E sentavam-se à sua volta para ouvi-lo falar e contar suas experiências.

Quando andamos de bicicleta - dizia - vamos numa velocidade diferente e podemos observar as coisas --  sejam as pessoas, os animais e até mesmo a natureza -- de uma forma que nunca poderíamos ver caso estivéssemos num outro meio de transporte.

Uma das histórias que ele mais gostava de contar era como aprendeu sobre o desapego. Quando começou a viagem levava uma carga de quarenta quilos, além do peso da bicicleta. Com o passar dos dias foi eliminando quase vinte quilos de coisas pelo caminho.

Viajar de bicicleta o obrigava a parar frequentemente, fosse para pedir um copo d’água ou apenas alguma informação, e conversando com as pessoas ele aprendia muito sobre a cultura, os costumes locais e o próprio ser humano.

O pedalante teve também a oportunidade de fazer amizades extraordinárias, como o seu José e a dona Maria, um humilde casal que, mesmo sem saber quem ele era, o acolheram por uma semana quando outra crise de tonturas e vômitos o abateu.

Teve também o seu João, da bicicletaria, que ofereceu seus préstimos para realizar um reparo na bicicleta quando esta quebrou bem no meio do nada. E não quis cobrar por isso. Foi um prazer, disse-lhe.

E assim, de pedalada em pedalada, quilômetro em quilômetro, experiência em experiência, o pedalante chegou ao sopé da Porta do Céu. A partir dali seria uma subida extremamente árdua, mesmo com vinte quilos a menos na bagagem.

Levaria aproximadamente sete dias para atingir o cume, e já fazia muito frio.

Com a desculpa de se preparar melhor, preferiu adiar o início da subida por dois dias, como se pudesse evitar o inevitável.

Passados os dois dias deu início à subida e, ao fim de uma semana, resignado, chegou ao pico.
O local era de beleza arrebatadora. Ali se formava uma paisagem surrealista, composta de cores que saltavam aos olhos. Tudo era diferente. Havia flores que pareciam ter sido propositalmente arranjadas para uma festa que estaria por acontecer.

Já cansado pelos quase quatro meses de viagem, o pedalante, pela última vez, montou seu acampamento. Com o pensamento em sua família, a saudade sufocante, preparou seu último jantar.
A noite chegou trazendo com ela o céu estrelado mais magnífico que ele já vira, o céu pelo qual ele atravessara mais de cinco mil quilômetros.

A viagem até ali tinha valido a pena. A mudança em sua vida fora enorme, como jamais se viu antes.

Enquanto contemplava extasiado aquele cenário deslumbrante, sentiu uma dor pontiaguda no cérebro e, desfalecendo, tombou ao chão.

Caído, de olhos fechados, despediu-se em pensamento daqueles a quem tanto amava, e então seu corpo finalmente cedeu à finitude da matéria.

Sua vida acabava ali. A travessia, quem sabe?