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minha utopia mais real
consistente
o dia que você entrará
por uma porta qualquer
que eu fechei, abri, fechei
que vc fechou, abriu, fechou
que nós fechamos
meu olhar fixo no vazio
na maçaneta
aguardando o menor movimento
que sinalizará sua entrada
do seu eu pleno
aquele que mora em você,
que eu acredito
aquele que eu sonho...
meu eterno sonho de pássaro.

lembranças de uma mente sem memórias

Estávamos, eu e você, num minúsculo vilarejo europeu, talvez nórdico. Suíça, Áustria, Finlândia, Noruega... Não sei dizer ao certo onde era. Mas lembro que a sensação de estar lá com você era extremamente agradável.

O local era pacato e ficava num vale rodeado por montanhas cobertas de neve muito branca.

Havia poucos turistas. Sempre havia poucos turistas. O vilarejo era uma espécie de ilha, isolada desse nosso mundo globalizado.

Lá, todos os estabelecimentos eram também pequenos e artesanais e, em sua maioria, administrados diretamente por seus austeros e tradicionais proprietários.

Entrei em uma pequena loja de quinquilharias e alguém estava buscando uma encomenda. Eram as placas com os nomes dos vencedores do "Oscar" daquele ano. A pessoal gentilmente pediu para mim: "não olhe, por favor". Obviamente, era preciso manter o sigilo sobre os ganhadores. Contive minha curiosidade e não olhei para o lado.

Saindo da loja, entrei em uma marcenaria. Máquinas antigas e ferramentas manuais. Quase idade média. Enquanto isso, você estava olhando outras coisas em outras lojinhas. Passou alguém por mim. Estava fumando um cigarro barato e fedido, e carregava uma tábua na cabeça. A pessoa disse algo para alguém e reconheci o idioma. Era um brasileiro. Pensei: "faz sentido... somos bons nisso". Olhei ao redor e toda madeira estocada era maciça. Madeiras nobres de todos os tipos. Logo me veio à cabeça infinitos carregamentos de madeira brasileira sendo exportados ilegalmente para todo o mundo, enquanto à nós nos cabia arcar com o prejuízo ambiental, além de ter que aceitar toda espécie de aglomerado e compensando vagabundos.

Sim, aquela era madeira brasileira e, se não me engano, era um roxinho que estava sendo aparelhado pelo funcionário brasileiro da marcenaria.

Imediatamente, imaginei suas caretas de reprovação, acompanhadas de imprecações, resmungos e maledicências, caso estivesse ali presenciando a cena. Dei com os ombros e ri sozinho.

Saí da marcenaria, nos encontramos e fomos almoçar em algum restaurante bacana. O restaurante tinha dois patamares, que eram revestidos de piso preto brilhante. Algum mármore chique italiano.

O desnível entre os patamares do restaurante tinha pouco mais de um metro, e havia uma escada que ligava um patamar ao outro. Para minha enorme surpresa, encontramos um casal de amigos meus. Fiquei alegre pela coincidência de encontra-los ali. Me senti orgulhoso de apresentá-la como minha esposa.

Após uma rápida conversa, combinamos, ali mesmo na escada, que nós quatro faríamos uma viagem ao Japão, muito em breve, com o intuito de explorar e conhecer a arquitetura local.

E, então, acordei, com a sensação de um gosto bom, na boca e na alma.

natimorto

mulher de mil faces!
conseguiu me matar?
eu morri?
ou já nasci morto em você?
sim... eu sempre suspeitei.
me perdoe por eu ter me decepcionado
comigo mesmo.

O

aonde quer chegar?
com esse osso,
saliente, insinuando-se,
martelando na minha cabeça vazia?

foto © mário bueno

olhos azuis

você me tira do sério.
desde o maldito dia
em que coloquei meus olhos azuis em você,
você me tira do sério.
fossem castanhos, talvez, tudo seria diferente
veria o mundo de outra forma
talvez não visse em você a paixão, o amor, a poesia
e a capacidade de me encantar com a beleza das mais pequeninas coisas,
talvez não visse em você a beleza, o desejo...
talvez não enxergasse em você a única mulher
capaz de despertar em mim a vontade de compartilhar as potências que me são mais preciosas, as que me são mais caras e mais importantes,
as potências que me são viscerais e que me fazem encontrar sentido para a vida.
olhos castanhos, cor da terra, do chão. pé no chão. árvore plantada no chão, raiz.
mas meu olho é azul. azul do céu, do infinito do céu,
azul do pássaro que voa até o horizonte sumir.
você me tira do sério.
mas meu olho é azul.
é azul, porra.

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essas setes letras malditas,
explodindo na minha cabeça
fodida cansada confusa

briga de casal

Noite passada acordei assustado, com o coração disparado, quase saindo pela boca, por conta dos berros provenientes do vizinho do andar de cima. Juro, quase infartei de susto tamanho o escândalo que ele fazia. Parecia que o cara estava gritando dentro do meu quarto. Pelo conteúdo da gritaria, imaginei ser uma briga de casal, pois o sujeito gritava para o quarteirão inteiro ouvir: "vai, agora! pega suas coisas e sai daqui!".

Olhei o celular: 3h31 da manhã. "Porra, não creio", pensei. Olhei de novo e eram 3h31 mesmo. Não estava errado.

Com o coração ainda alucinado, continuei ouvindo a briga por um tempinho. É incrível o número de considerações que pode passar na cabeça de um ser humano em apenas alguns segundos. "Meto a colher? Não meto? Chamo a polícia? Não chamo? Será que vai rolar uns tapas, violência, um crime Dona Maria da Penha? Um corpo estendido no chão ou voando pela janela?". A mente é terreno fértil.

Com o passar do tempo, comecei a perceber que tinha outras vozes além da do cidadão, mas em tom mais baixo. Algo do tipo "back vocals". Ainda meio confuso de sono, pensei: "estranho". E, logo em seguida, comecei a identificar algumas palavras, no meio da gritaria, que me fizeram ter a certeza do que se tratava a cena.

Era uma sessão de exorcismo. Sim, meus amados irmãos em Cristo, uma sessão de exorcismo. O descarrego acontecendo ao vivo, escandalosamente, às três e meia da manhã, em pleno condomínio residencial familiar, com dezenas de pessoas de bem tentando dormir o sono dos justos.

O belzebu, capiroto, demo, satanás, chifrudo, coisa ruim, tinhoso, ou algum enviado dele, tinha dado as caras no andar de cima e a galera da direita conservadora estava inconformada com isso.

Como o cidadão e toda sua turma, em uníssono, mandasse o demo pegar as coisas dele e ir embora de lá, imagino que o tinhoso, com o rabo entre as pernas, não teve outra opção a não ser ir embora. O problema é que, pelo caminho, acho que resolveu parar no andar de baixo, mais especificamente no meu quarto. Isso porque, de repente, parece que fui possuído por uma coisa ruim inexplicável. Saravá, mizifio! Sai de mim que esse corpo não te pertence.

O capetinha, no meu ombro esquerdo, sussurrava: "Que absurdo, olha a hora, mas que falta de respeito, que falta de consideração, onde já se viu uma coisa dessas... vai ficar quieto? Vai deixar assim? Lembre-se... não é a primeira vez... da outra vez foi à 1h30 da manhã, lembra?". Insinuações assim se avolumavam na minha cabeça.

Já o anjinho, no meu ombro direito, ponderava: "Calma, amigo. Os desígnios de Deus são insondáveis e, além do mais, o diabo não escolhe hora para aprontar das suas. Muito pelo contrário, ele fará todo o possível para criar o máximo de confusão. E o que podemos fazer? Nos calar? Obviamente que não."

Eu sentado na cama, infartando, confuso, descabelado, ramelento, com sono, entre os argumentos da defesa e da acusação, sem saber pra que lado pender. Não me deram tempo nem para lavar o rosto.

O fato é que a carne é fraca, e o chifrudo lazarento do capeta parecia estar ganhando terreno.

Então, num impulso, levantei e me dirigi à cozinha onde fica o interfone. Bendita tecnologia. Ligação direta para o front de batalha. Falei pessoalmente com o gerentão da bagunça lá em cima e, com toda finesse que me foi possível, proferi uma série de impropérios ao líder do exército celestial, encarnado aqui no andar de cima.

A situação, aparentemente, se acalmou. Obviamente porque o capeta já não estava mais lá. Estava em mim. Infelizmente, ele não me ajudou a dizer tudo que eu gostaria de dizer ao combativo soldadinho do Senhor. Ficou faltando falar muita coisa. Aquelas coisas que você vai elaborando só depois do ocorrido e pensando: "puxa, deveria ter falado isso, aquilo, e aquilo outro".

O nervoso era tanto que até me esqueci de invocar o inoxidável Padre Quevedo que já, exaustivamente, demonstrou que demônios "non ecxistem" (muito embora eu desconfie que, nessa altura do campeonato, falar do Padre Quevedo seria o mesmo que jogar pérolas aos porcos, mas enfim). Maledito! Não ouviu metade do que precisava.

Perdi a noite de sono, pois o coração só foi voltar ao normal quando era dia. O satanazi rondou por aqui até o dia seguinte, mas agora parece que já foi embora, pois sinto que já estou um pouquinho mais calmo.

Se bem conheço a índole do cornudo mal-cheiroso, acho que ele voltará no vizinho para aprontar outras travessuras. E, se isso acontecer novamente, estarei melhor preparado para a situação. Me aguarde, vizinho!