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essas setes letras malditas,
explodindo na minha cabeça
fodida cansada confusa

briga de casal

Noite passada acordei assustado, com o coração disparado, quase saindo pela boca, por conta dos berros provenientes do vizinho do andar de cima. Juro, quase infartei de susto tamanho o escândalo que ele fazia. Parecia que o cara estava gritando dentro do meu quarto. Pelo conteúdo da gritaria, imaginei ser uma briga de casal, pois o sujeito gritava para o quarteirão inteiro ouvir: "vai, agora! pega suas coisas e sai daqui!".

Olhei o celular: 3h31 da manhã. "Porra, não creio", pensei. Olhei de novo e eram 3h31 mesmo. Não estava errado.

Com o coração ainda alucinado, continuei ouvindo a briga por um tempinho. É incrível o número de considerações que pode passar na cabeça de um ser humano em apenas alguns segundos. "Meto a colher? Não meto? Chamo a polícia? Não chamo? Será que vai rolar uns tapas, violência, um crime Dona Maria da Penha? Um corpo estendido no chão ou voando pela janela?". A mente é terreno fértil.

Com o passar do tempo, comecei a perceber que tinha outras vozes além da do cidadão, mas em tom mais baixo. Algo do tipo "back vocals". Ainda meio confuso de sono, pensei: "estranho". E, logo em seguida, comecei a identificar algumas palavras, no meio da gritaria, que me fizeram ter a certeza do que se tratava a cena.

Era uma sessão de exorcismo. Sim, meus amados irmãos em Cristo, uma sessão de exorcismo. O descarrego acontecendo ao vivo, escandalosamente, às três e meia da manhã, em pleno condomínio residencial familiar, com dezenas de pessoas de bem tentando dormir o sono dos justos.

O belzebu, capiroto, demo, satanás, chifrudo, coisa ruim, tinhoso, ou algum enviado dele, tinha dado as caras no andar de cima e a galera da direita conservadora estava inconformada com isso.

Como o cidadão e toda sua turma, em uníssono, mandasse o demo pegar as coisas dele e ir embora de lá, imagino que o tinhoso, com o rabo entre as pernas, não teve outra opção a não ser ir embora. O problema é que, pelo caminho, acho que resolveu parar no andar de baixo, mais especificamente no meu quarto. Isso porque, de repente, parece que fui possuído por uma coisa ruim inexplicável. Saravá, mizifio! Sai de mim que esse corpo não te pertente.

O capetinha, no meu ombro esquerdo, sussurrava: "Que absurdo, olha a hora, mas que falta de respeito, que falta de consideração, onde já se viu uma coisa dessas... vai ficar quieto? Vai deixar assim? Lembre-se... não é a primeira vez... da outra vez foi à 1h30 da manhã, lembra?". Insinuações assim se avolumavam na minha cabeça.

Já o anjinho, no meu ombro direito, ponderava: "Calma, amigo. Os desígnios de Deus são insondáveis e, além do mais, o diabo não escolhe hora para aprontar das suas. Muito pelo contrário, ele fará todo o possível para criar o máximo de confusão. E o que podemos fazer? Nos calar? Obviamente que não."

Eu sentado na cama, infartando, confuso, descabelado, ramelento, com sono, entre os argumentos da defesa e da acusação, sem saber pra que lado pender. Não me deram tempo nem para lavar o rosto.

O fato é que a carne é fraca, e o chifrudo lazarento do capeta parecia estar ganhando terreno.

Então, num impulso, levantei e me dirigi à cozinha onde fica o interfone. Bendita tecnologia. Ligação direta para o front de batalha. Falei pessoalmente com o gerentão da bagunça lá em cima e, com toda finesse que me foi possível, proferi uma série de impropérios ao líder do exército celestial, encarnado aqui no andar de cima.

A situação, aparentemente, se acalmou. Obviamente porque o capeta já não estava mais lá. Estava em mim. Infelizmente, ele não me ajudou a dizer tudo que eu gostaria de dizer ao combativo soldadinho do Senhor. Ficou faltando falar muita coisa. Aquelas coisas que você vai elaborando só depois do ocorrido e pensando: "puxa, deveria ter falado isso, aquilo, e aquilo outro".

O nervoso era tanto que até me esqueci de invocar o inoxidável Padre Quevedo que já, exaustivamente, demonstrou que demônios "non ecxistem" (muito embora eu desconfie que, nessa altura do campeonato, falar do Padre Quevedo seria o mesmo que jogar pérolas aos porcos, mas enfim). Maledito! Não ouviu metade do que precisava.

Perdi a noite de sono, pois o coração só foi voltar ao normal quando era dia. O satanazi rondou por aqui até o dia seguinte, mas agora parece que já foi embora, pois sinto que já estou um pouquinho mais calmo.

Se bem conheço a índole do cornudo mal-cheiroso, acho que ele voltará no vizinho para aprontar outras travessuras. E, se isso acontecer novamente, estarei melhor preparado para a situação. Me aguarde, vizinho!

o peso da nuvem

da próxima vez que partir,
vá quando eu estiver dormindo,
assim, quando eu acordar,
vou achar que foi apenas um sonho ruim.
vá de mansinho, sem fazer barulho,
e não bata a porta pra não me assustar.
se puder, não vá numa sexta
porque depois vem o sábado e o domingo,
e os domingos são sombrios, cheios de melancolia e solidão.
vá como se fosse voltar
e deixe suas roupas espalhadas no quarto
pois posso acreditar que vc vai voltar.
vá, mas deixe café na xícara, um copo com água, e o cigarro aceso,
deixe aquele resto de comida no prato
e a porta da sala aberta.
pode ir, mas, se puder, me engane
me iluda, finja, minta...
quando você finalmente se for,
deixe a esperança naquele porta-chaves da entrada; as chaves, não.
e não diga adeus,
pois eu sobrevivo do sonho e da ilusão
do seu retorno
possível, improvável
porque eu sei,
eu sei que fracassamos.


\•/

habitar nos seus galhos, suas flores,
mergulhar no seu azul...
meu sonho de pássaro.

foto © mário bueno


deitado

deitado
me vejo nu, diante do espelho,
cínico,
que flutua sobre meu corpo.

estranhamente,
me amo,
me apaziguo,
viril e forte,
um lampejo raro de mim.

faço um retrato mental,
para que o tempo pare
nesse raro segundo
onde o mundo parece fazer sentido.

vendo-me, vejo também meu outro
e também minha alma gêmea
refletida para mim,
e em mim.

me ocorrer registrar a cena
e enviar, pelas ondas, como apelo,
como prova,
desse segundo perfeito que vivemos,
e da sintonia plena que só existe
entre almas e corpos como os nossos.

exito, recuo, receio,
parecer provocação.
desisto, enfim.

não entendo essa matemática
onde um e um são três.
mas envio então,
este retrato falado
para que não te esqueças
do meu corpo nu
(estentido sobre a cama,
satisfeito, entregue),
dos meus pêlos,
meus olhos,
minha barba em teu corpo
nossos cheiros e salivas,
no abraço forte,
e na união dos afetos
que minha alma guardará marcada
à ferro e brasa
como cicatriz eterna, da sede,
da pequena e intensa existência,
do impossível mais desejado do mundo.

manoel

Eu leio Manoel de Barros gostando que as frases impregnassem em mim, mas elas escapam, obrigando-me a ler e reler incontáveis vezes, o que sempre me agrada.

••..

De noite o escuro apaga o sol
tinge as paredes do meu quarto
perde minha voz para dentro