o peso da nuvem

da próxima vez que partir,
vá quando eu estiver dormindo,
assim, quando eu acordar,
vou achar que foi apenas um sonho ruim.
vá de mansinho, sem fazer barulho,
e não bata a porta pra não me assustar.
se puder, não vá numa sexta
porque depois vem o sábado e o domingo,
e os domingos são sombrios, cheios de melancolia e solidão.
vá como se fosse voltar
e deixe suas roupas espalhadas no quarto
pois posso acreditar que vc vai voltar.
vá, mas deixe café na xícara, um copo com água, e o cigarro aceso,
deixe aquele resto de comida no prato
e a porta da sala aberta.
pode ir, mas, se puder, me engane
me iluda, finja, minta...
quando você finalmente se for,
deixe a esperança naquele porta-chaves da entrada; as chaves, não.
e não diga adeus,
pois eu sobrevivo do sonho e da ilusão
do seu retorno
possível, improvável
porque eu sei,
eu sei que fracassamos.


\•/

habitar nos seus galhos, suas flores,
mergulhar no seu azul...
meu sonho de pássaro.

foto © mário bueno


deitado

deitado
me vejo nu, diante do espelho,
cínico,
que flutua sobre meu corpo.

estranhamente,
me amo,
me apaziguo,
viril e forte,
um lampejo raro de mim.

faço um retrato mental,
para que o tempo pare
nesse raro segundo
onde o mundo parece fazer sentido.

vendo-me, vejo também meu outro
e também minha alma gêmea
refletida para mim,
e em mim.

me ocorrer registrar a cena
e enviar, pelas ondas, como apelo,
como prova,
desse segundo perfeito que vivemos,
e da sintonia plena que só existe
entre almas e corpos como os nossos.

exito, recuo, receio,
parecer provocação.
desisto, enfim.

não entendo essa matemática
onde um e um são três.
mas envio então,
este retrato falado
para que não te esqueças
do meu corpo nu
(estentido sobre a cama,
satisfeito, entregue),
dos meus pêlos,
meus olhos,
minha barba em teu corpo
nossos cheiros e salivas,
no abraço forte,
e na união dos afetos
que minha alma guardará marcada
à ferro e brasa
como cicatriz eterna, da sede,
da pequena e intensa existência,
do impossível mais desejado do mundo.

manoel

Eu leio Manoel de Barros gostando que as frases impregnassem em mim, mas elas escapam, obrigando-me a ler e reler incontáveis vezes, o que sempre me agrada.

••..

De noite o escuro apaga o sol
tinge as paredes do meu quarto
perde minha voz para dentro

mutilação

há tempos deixava fardos prá trás
dessa vez, deixei um pedaço de mim.
qual o louco arranca de si
o pedaço indispensável
para poder prosseguir?

-o-

sou uma pessoa absolutamente confiável,
mas não espere nada de mim.
muito menos uma linha reta
linha reta é quem já morreu.